Puerpério: seis semanas vivendo fora do corpo

Foi exatamente assim que eu me senti no puerpério, os primeiros dias de vida do meu filho, vivendo fora do meu corpo! O coração batia fora do corpo, respirava fora do corpo, tudo naquele corpinho….que agora vivia fora do meu. O tempo não se conta mais em horas e sim em mamadas, dia e noite se misturam, o mundo lá fora parou!

Durante a gestação eu li um best seller americano chamado O que esperar quando você está esperando. O livro é dividido por tempo e nele há uma sessão dedicada ao pós parto, o puerpério, com seis semanas de duração. Só seis semanas?! Meu Deus, a gestação durou 40 e não pareceu demorar tanto! E eu pensava, ah o meu vai durar mais! Isso não pode acabar como mágica do dia pra noite, e já está quase na sexta semana, e não melhorou nadinha!

Eu sentia dor, eu sentia medo, eu chorava e eu sentia culpa por me sentir assim. Tomar banho doía, deixar a água bater no peito doía, me secar doía, e enquanto a água corria eu pensava “será que eu vou me sentir assim pra sempre? Quando eu vou me sentir normal de novo?”. Era tanto inchaço… meus pés pareciam como sacos plásticos cheios d’água e quando eu pisava eles balançavam… Que corpo era aquele?! Meu não era… E nem era eu a habitar nele! Porque eu, eu era uma mãe que acabara de ter seu sonhado bebê, eu saí da maternidade uma mãe feliz e realizada, e aquela pessoa que habitava aquele corpo dolorido, aquela pessoa só chorava sem qualquer motivo, aquela pessoa não conseguia dormir apesar de todo o cansaço! Aquela pessoa não estava preparada para ser mãe, não queria receber ninguém apesar de toda a felicidade a ser compartilhada… Aquela mulher se fechara na penumbra e no silêncio como se não estivesse pronta para o mundo lá fora… Aquele corpo não ficava bem em roupa alguma, nem nas que eu vestia enquanto tinha um bebê de 3,5kg na barriga… Aquele corpo cheirava a leite…e ainda assim eu não conseguia amamentar.

Nada era como deveria ser, e eu não esperava nenhum conto de fadas, mas eu esperava me reconhecer no caos e aquela ali não era eu… eu sabia… Eu achava que sabia, mas saber não basta, saber não é sentir, e agora eu sentia, sentia naquele corpo que não era mais meu, sentia naquele corpo vazio de mim e do meu filho.

E então completaram-se as seis semanas, os litros de água de cada pé já haviam sido postos pra fora em lágrimas, só o peito ainda doía, mas era uma dor que eu reconhecia, legitimada pelo ato de amamentar, o que pra mim a essa altura ainda era um desafio, mas eu já me sentia eu mesma o bastante pra saber que eu conseguiria! Eu já podia dormir por 2 ou 3h sem acordar pra checar a respiração dele, eu já podia ouvir o silêncio sem angústia, eu já podia me bastar eu e meu filho somente, só nós dois como no tempo da barriga e saber que tudo estava em seu lugar! Eu já podia reconhecer seu choro, já podia externar o amor com mais sorrisos e menos lágrimas… Eu já podia curtir….

O que mudou afinal?! Não sei, talvez fossem só hormônios ou um pouco de depressão pós parto, talvez tenha sido só o meu tempo, mas de fato como mágica eu voltei a me sentir minimamente normal! Igual a antes?! Nunca! Mas eu mesma, uma nova versão de mim, uma mãe que acabava de nascer, mas totalmente eu!

Um bebê leva 40 semanas para nascer, uma mãe leva seis!

Fonte: http://quemaesoueu.com/2015/03/17/puerperio-seis-semanas-vivendo-fora-do-corpo/

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One thought on “Puerpério: seis semanas vivendo fora do corpo

  • Por Ivana Abdo Martins - Reply

    Estou debruçada sobre Obstetric levator ani muscle injuries:current status in Ultrasonic Obstetric Gynecology 2012;39: 372 – 383 Schwetner-Tiepelmann,N para ver se “vejo” tridimensionalmente. Vou acompanhar a sequencia no blog pois nao compreendi as mudanças de pressão no canal vaginal decorrentes das lesões do MLA. Anatomia funcional da pelve deve ser a mais dificil de ser entendida. Obrigada por apresentar o De Lancey tao gentilmente

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